domingo, 25 de outubro de 2009

Decisões políticas equivocadas

Os governantes, nos países democráticos, são eleitos para que, através da estruturação de uma equipe de governo integrada por gestores e técnicos experientes e competentes em todas as áreas do serviço público, possam promover ações políticas baseadas num planejamento focado nas necessidades da população, que lhes colocou no poder. Poder, salientemos, de tomar decisões estratégicas, táticas e operacionais consistentes e realizar, executar programas e projetos de inclusão e de satisfação das carências da sociedade não só correntes, do dia a dia, mas com uma visão de futuro.
No entanto, sempre aparecem, aqui e ali, alguns administradores públicos que acham que o poder que lhes foi emprestado temporariamente foi o de fazer o que bem entendem, sem consultar a população sobre os impactos positivos ou negativos de suas decisões, normalmente tomadas nos gabinetes e em uma roda de “líderes” de grupos de interesse. Interesse de quem?
Os moradores de Goiânia estão, no momento, sob a situação de sofrer um grande prejuízo, principalmente os trabalhadores que utilizam o transporte coletivo do eixo Anhanguera no deslocamento de suas residências para seu serviço e vice-versa. Isto porque segundo noticias de jornais me levam a leitura que está em andamento uma armação para privatizar a linha principal do transporte coletivo da capital, atualmente a concessão é da empresa estatal ligada ao Governo de Goiás Metrobus, que, por dispor de um subsídio da ordem de R$ 60 milhões mensais, proporciona ao usuário desse trecho uma passagem mais acessível no valor de R$ 1,15.
Quem irá decidir esta questão é a Câmara Deliberativa do Transporte Coletivo – CDTC, que regula o sistema modal de transporte coletivo na Região Metropolitana de Goiânia, e tem discutido a continuidade ou não da concessão da exploração do Eixo-Anhanguera pela Metrobus. O problema é que, se privatizada e sem o subsídio, o valor de cada passagem terá um acréscimo de quase 100%, indo para R$ 2,25, o que fatalmente prejudicará toda uma massa de trabalhadores, um total de 180 mil/dia usuários que dependem deste eixo para se deslocarem ao seu trabalho e não têm condições de arcar com esse custo. No entanto, ocorre que a CDTC é composta de 09 (nove) conselheiros, e destes, 06 (seis), a maioria, obedecem à orientação do Prefeito Íris Rezende, que dar indicativo no desejo de privatizar, o que consideramos um equívoco sem precedentes por não considerar o pesado ônus a ser imposto à população, e sim os interesses de grupos econômicos que somente visam o lucro e não têm qualquer envolvimento e preocupação com o fator social do transporte que, entendemos, deverá ser público e para todos, mormente nas regiões metropolitanas em que se verifica um grande fluxo de trabalhadores.
Somos contrários a qualquer privatização nos moldes em que têm sido feitas no Brasil e não poderíamos deixar de nos posicionar em relação à Metrobus, que tem desempenhado exemplarmente seu importante papel de prover um transporte de qualidade e acessível à população trabalhadora goianense
. Para que se possa avaliar o potencial destrutivo de uma decisão política equivocada, façamos um paralelo com o que aconteceu com a Caixego, considerada pelo Banco Central do Brasil como uma das melhores instituições financeiras com objetivo social do país, e que um ato meramente de cunho político e de revanchismo eleitoral, produziu o fechamento daquela modelar empresa pública goiana, tendo como conseqüência incalculável prejuízo a setores vitais da economia de Goiás, como micro e pequenos empresários urbanos e rurais, habitação e poupança, além do asacrifício, a imolação de grande número de seus servidores e familiares, pela perda abrupta do seu emprego, em que milhares de pessoas dormiram empregadas e acordaram desempregadas, passando a conhecer de perto o que é o isolamento e a falta de perspectiva, ficando sem qualquer apoio por parte das instituições estatais, privadas e políticas.
Mas a História está, ainda que tardiamente, para fazer justiça com esses dedicados trabalhadores que, de forma ordeira mas com tenacidade e persistência, continuam firmes no movimento de conscientização das autoridades e da população para a necessidade de reconhecimento e de recondução daqueles que sofreram odiosos atos políticos de exceção, atentando contra o nosso Estado, sua economia e sua gente.
Através do processo de Anistia Administrativa em curso, acreditamos firmemente que, pela seriedade das pessoas envolvidas nessa questão, brevemente os protagonistas de hoje (autoridades, técnicos e a nossa associação) farão o que os inermes de ontem não o fizeram: o resgate do massacre perpetrado contra os ex-funcionários da Caixego, cidadãos goianos e funcionários públicos como todos os outros dos operosos quadros do Estado de Goiás.
Para reflexão dos agentes públicos deixo aqui a seguinte frase “as lições dos processos eleitorais do passado e do presente não perdoam aqueles que traem a confiança do povo”.

Antonio Alencar Filho é administrador e presidente da Associação de Resgate e Cidadania do Estado de Goiás e escreve aos domingos

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A dança dos noivos na política

Na história contemporânea, vivenciamos os casamentos dos namorados tradicionais selados nas igrejas, cartórios, residências e jardins floridos com os seus adereços e fogos oferecidos aos seus convidados. Não mudou com o tempo; o significado do noivado é provavelmente a maturidade de um relacionamento. Qual é o tempo ideal para ficar noivo? Não existe, dizem os apaixonados. Alguns namoram por muito tempo, ficam noivos e já se casam de imediato, outros namoram pouco tempo e permanecem noivos por muito tempo. É um período muito interessante, durante o qual os casais poderão conhecer melhor os hábitos, manias e o próprio temperamento, além do que planejam o futuro, agregam sonhos e fantasias de uma vida a dois. Ao conjunto do noivado, acrescento ainda o par de alianças, que comunga o pacto entre duas ou mais partes, objetivando a realização de fins comuns, as quais representam a “fidelidade e o compromisso”.
Certos noivados são pautados em dotes que as famílias dos noivos possuem, outras no padrão econômico individual de cada um, isso nos leva a crer no forte laço de interesses dos namorados e famílias envolvidas num processo de união. Na outra vertente, namorados de poder aquisitivo baixo ou sem algum apoio material para realização dos sonhos almejados e planejados durante o noivado. Das duas situações, podemos concluir que as possibilidades de um futuro próspero dentro do esperado são quase sempre incertas.
Na política, observamos a dança dos noivos nos partidos composta de pessoas com destaque na sociedade, cada uma com seu nível de representação de importância. No último dia 03.10.2009, venceu o prazo das filiações para aqueles que têm o desejo de almejar uma candidatura aos cargos majoritários e proporcionais do ano que vem nas eleições de governador, deputados estaduais, federais e seus respectivos suplentes. O que se viu nos últimos meses de namoros e noivados novos e desfeitos na política é algo de entrar no guinness book, livro dos recordes mantido na rede mundial de fatos e acontecimentos. Até no altar das igrejas, quero dizer nos pedestais dos partidos, assistimos, pelos veículos de comunicação, separações antecipadas, que surpreenderam aos mais renomados estrategistas, cientistas políticos e, também, por que não dizer os inventores teatrais da comunicação de personagens de quadrinhos de desenhos inexistentes? Cada capítulo das opções partidárias pelos futuros noivos pretendentes na disputa das eleições propaladas determinou os perfis de dotes e padrões econômicos, bem como os agregados de baixo poder aquisitivo para que todos sirvam de mulas eleitorais aos interesses grupais de um sistema político arcaico de quem pode mais, manda mais.
Finalmente, somos vítimas ou não? Dessa dúvida esperamos ser conduzidos por noivados que traduzam uma relação de maturidade e crescimento, mesmo porque acreditamos que esses atores do namoro institucional e partidário tenham juízo e ética nas suas negociações de fato, consolidando alianças que não sejam seladas nas emoções do ódio e nem visem seus interesses pessoais.


Antonio Alencar Filho é administrador e presidente da Associação de Resgate e Cidadania do Estado de Goiás e escreve aos domingos

sábado, 3 de outubro de 2009

O SAL DA TERRA

O mundo já foi mais solidário. Apesar de a história registrar a vida de pessoas consideradas verdadeiros líderes positivos na sociedade, desde conquistadores, cientistas, políticos, militares e até mesmo santos, que, com suas lutas, geraram grandes realizações para toda a humanidade, a atualidade revela uma involução em termos de valores e exemplos de práticas meritórias em proveito da coletividade. Com isso, a maioria fecha-se em torno de si mesma com seus membros, argumentando que já tem problemas demais para ficarem se preocupando com os alheios e alegando que há gente mais preparada, mais qualificada para tal. Justificam-se aos outros e principalmente a si mesmos, dizendo que existem pessoas mais ricas e abastadas que se preocupam em ajudar os menos afortunados e o governo tem planos e projeto sociais em órgãos que se ocupam com o bem-estar da população.
Na verdade, não querem comprometer a sua vida sossegada e confortavelmente instalada. Com isso, deixam que o seu egoísmo, mesquinharia e “dolce far niente” inebriem lentamente as suas almas, retirando a cor e o sabor de uma vida com potencial de ser proativa, útil e consequente. Deixam de doar o seu melhor para seu próximo que, na realidade, em que nos deparamos, normalmente pode ser um vizinho que passa por dificuldades, uma pessoa que precisa de atendimento médico, um pai de família que perdeu seu emprego, o sustento de seus filhos e esposa, situação de ocorrência muito frequente hoje em dia, mesmo com a negação demagógica dos governos em tempo de eleição.
Não podemos adotar essa postura sob pena de, a qualquer momento, sermos chamados à responsabilidade ou por nosso íntimo sentimento de fragilidade cidadã, por nossos filhos e familiares que identificarão nossa omissão covarde ou mesmo pelo segmento social que dizemos representar e do qual apenas temos colhido o “bônus”, esquecendo-nos do “ônus” respectivo.
Tal visão acomodada não pode, não tem a mínima chance de prosperar. Os líderes sociais em geral, classistas e políticos em particular, precisam voltar a desempenhar seu papel de elo entre o poder e a sociedade, cumprindo efetivamente suas atribuições no sentido de realizar constante auscultação dos anseios e necessidades dos seus representados e levar até às últimas consequências ações de resultado ante os níveis decisórios dos governos para que as pessoas que pagam seus salários através dos impostos e contribuições tenham suas prioridades realmente atendidas e, se assim não o fizerem, sejam essas ineptas lideranças acionadas judicialmente para cumprirem o que for de sua competência, sob as penas da lei, como tem sido feito há décadas nos países mais desenvolvidos.
Toda pessoa que ocupa determinada posição de destaque, empresário, trabalhador ou qualquer autoridade, tem a obrigação e o dever de servir de exemplo para a comunidade na sua área de responsabilidade, atendendo o que as escrituras há milênios exortam: neste mundo que chora e geme, ser o “sal da terra”. Se assim não se comportar, fatalmente será, um dia ou outro, sumariamente afastada de suas funções por não fazer falta.
Como, na Bíblia, afirma Mateus (5:13): “Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.”
Antonio Alencar Filho é administrador e presidente da Associação de Resgate e Cidadania do Estado de Goiás e escreve aos domingos